quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Do Mito ao Pensamento Racional

DO MITO AO PENSAMENTO RACIONAL – CAM

FRANCISCO MARTINS DE SOUSA*



Para melhor compreensão dos conceitos abordados neste item, sugerimos fazer uma pesquisa nos seguintes livros, a fim de recolher elementos para sua melhor exemplificação:

1. Os Filósofos Pré-Socráticos, G. S. KIRK, J. B. RAVEN e M. SCHOFIELD. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 4ª ed. 1994, Cap. 1, pp. 1-70.

2. História da Filosofia Antiga, Giovanni REALE. São Paulo: Loyola, 1993, vol 1. Introdução, parte II. As formas da vida espiritual grega que prepararam o nascimento da filosofia, pp. 19-27.

3. Filosofia do Mundo, Filippo SELVAGGI. São Paulo: Loyola, 1988. Cap. II. 1. Visão animístico-antropomórfica, pp. 33-38.

4. Filosofando: introdução à filosofia, Maria Lúcia de Arruda ARANHA e Maria Helena Pires MARTINS. São Paulo: Moderna, 2.ed. rev. atual, 1993. Cap. 6. A Consciência Mítica, pp. 54-59.

5. Mito e Realidade, Mircea ELIADE. São Paulo: Perspectiva, 5ª ed., 2000. Caps. I, II, III e IV, pp. 7-69.



1. INTRODUÇÃO



Com a palavra mitologia designam-se dois conceitos: o conjunto de mitos e lendas que um povo imaginou e o estudo dos mesmos. A palavra vem do grego mythos, significando fábula e logos, tratado. O conceito de fábula não nos deve induzir a crer que o mito seja uma ficção caprichosa da imaginação.Dentro da narrativa mítica esconde-se um aspecto, um núcleo, que encerra uma verdade. A fábula, pelo contrário, refere-se a acontecimentos realmente imaginados e que não modificam a condição humana como tal. O mito relata uma “história verdadeira”, na medida em que toca profundamente o ser humano ¾ ser mortal, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, submetido a acontecimentos e imprevistos que independem de sua vontade. Dizer-se que sob uma forma “fabulada”, imaginária, a mitologia narra uma história do ser humano através dos milênios, não seria afastar-se muito da verdade.

É a história da criação do mundo, do ser humano, de múltiplos eventos cuja memória cronológica se perdeu, mas que se preservaram em uma memória “mítica”. Todos os povos estudados até hoje têm seus mitos da criação. O indígena brasileiro, a origem bíblica do universo, o mito babilônico da criação, o mito da criação do mundo segundo Hesíodo e muitos outros.

Para a consciência mítica, tudo deve ter tido a sua origem. Se esta origem ficou encoberta pelas trevas do tempo e do mistério, isto não significa que não possa ser recuperada pela imaginação. A realidade das coisas está aí a demonstrar a repetição das origens nos ciclos da vida. A temporalidade dos acontecimentos pouco interessa. Interessa, sim, o fato de que eles se repetem: e por isso são perenes.

Para os nossos objetivos, que é chegar ao pensamento racional grego, não interessa aqui, “a mitologia pura, mas antes os conceitos que, apesar de expressos na linguagem do mito e por intermédio das suas personagens, são o resultado de uma mais direta, empírica e não-simbólica maneira de pensar. Esses modos quase racionalistas de encarar o mundo dizem respeito, na maioria dos casos, à fase mais recuada da sua história, e começam verdadeiramente com o seu nascimento ou criação, ao mesmo tempo, que coincidem com o esforço (realizado da forma mais notável por Hesíodo na Teogonia) para sistematizar as múltiplas divindades da lenda, ao fazê-las descender de um antepassado comum ou de um par de antepassados, nos começos do mundo. Contudo, a investigação ativa acerca da ascendência do mundo, quer ela fosse principalmente mítica, como em Hesíodo, quer sobretudo racional, como nos filósofos milésios, deve ter sido continuada apenas por uma minoria”. (KIRK et alli, 1994).



II. A POESIA ÉPICA GREGA, A RELIGIÃO E O SOCIAL


Antes do nascimento da filosofia, os grandes educadores dos gregos foram, sem dúvida, os poetas, sobretudo Homero, cujos poemas têm sido exaltados quase como a Bíblia dos gregos, no sentido de que a primitiva grecidade buscou alimento espiritual essencial e prioritariamente nos poemas homéricos, dos quais extraiu modelos de vida, matéria de reflexão, estímulo à fantasia e, portanto, todos os elementos essenciais à própria educação e formação espiritual.

Segundo Reale (Reale, 1993, p.19-20): Os poemas homéricos contêm algumas dimensões que os diferenciam nitidamente de todos os poemas que estão nas origens dos vários povos e já manifestam algumas das características do espírito grego que criaram a filosofia.

Em primeiro lugar, foi bem observado que os dois poemas, construídos por uma imaginação tão rica e variada, transbordantes de maravilha, de situações e eventos fantásticos, não caem, senão raras vezes, na descrição do monstruoso e do disforme, como em geral acontece nas primeiras manifestações artísticas dos povos primitivos: a imaginação homérica já se estrutura segundo o sentido da harmonia, da eurritmia, da proporção, do limite e da medida, que se revelará, depois, uma constante da filosofia grega, a qual erigirá a medida e o limite até mesmo em princípios metafisicamente determinantes.

Ademais, observou-se também que, na poesia de Homero, a arte da motivação é uma constante, no sentido de que o poeta não narra só uma cadeia de fatos, mas busca, embora em nível fantástico-poético, as suas razões. Homero não conhece, escreve justamente Jaeger, “mera aceitação passiva de tradições nem simples narração de fatos, mas exclusivamente desenvolvimento interiormente necessário da ação de fase em fase, nexo indissolúvel entre causa e efeito (...). A ação não se distende como uma fraca sucessão temporal: vale para ela, em todos os pontos, o princípio da razão suficiente, cada evento recebe rigorosa motivação psicológica”. Este modo poético de ver as coisas é exatamente o antecedente da pesquisa filosófica da “causa”, do “princípio”, do “porquê” das coisas.

E uma terceira característica da épica homérica prefigura a filosofia dos gregos: em ambos “a realidade é apresentada na sua totalidade: o pensamento filosófico a apresenta de forma racional, enquanto a épica a mostra de forma mítica. A ‘posição do homem no universo’, tema clássico da filosofia grega, está também presente a todo momento em Homero”.[1]

Se Homero exalta a aristocracia e a virtude como sendo parte desta, como algo que é dado pelo nascimento, o segundo poeta que os gregos colocaram ao lado de Homero, Hesíodo revelará uma esfera social totalmente diversa do mundo e da cultura dos nobres. Nos diz Jaeger (JAEGER, 1989, p. 59): “Principalmente o último e mais arraigado à terra dos poemas de Hesíodo que se conservaram, os Erga, apresenta a mais viva descrição da vida campestre da metrópole grega no final do séc. VIII e completa essencialmente a representação da vida mais primitiva do povo grego que aprendemos do jônico Homero. Homero acentua, com a maior nitidez, que toda a educação tem o seu ponto de partida na formação de um tipo humano nobre, o qual nasce do cultivo das qualidades próprias dos senhores e dos heróis. Em Hesíodo revela-se a segunda fonte da cultura: o valor do trabalho.”

Portanto, a poesia épica foi uma das grandes fontes do nascimento da filosofia grega. As outras fontes foram: os deuses da religião pública e a religião dos mistérios, sobretudo, o orfismo. E a filosofia nasce não só como filosofia, mas é justamente a sua busca de um princípio natural que a torna uma filosofia da natureza, ou seja, Ciência

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III - CONCLUSÃO


A mitologia,com o modernismo foi ridicularizada, entretanto, já na segunda década do séc. XX, os eruditos ocidentais passaram a estudar o mito por uma perspectiva que contrasta sensivelmente com a do séc. XIX, por exemplo. Ao invés de tratar, como seus predecessores, o mito na acepção usual do termo, i.e., como “fábula”, “invenção”, “ficção”, eles o aceitaram tal qual era compreendido pelas sociedades arcaicas, onde o mito designa, ao contrário, uma “história verdadeira” e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo. Assim, a grandiosidade da construção grega do racionalismo tem suas raízes no mito, sobremaneira representada pelos dois grandes poetas épicos: Homero e Hesíodo. Hoje fala-se que a Ilíada e a Odisséia, poemas atribuídos a Homero, na verdade, são de épocas diferentes e, que portanto, não poderiam ter sido escritos pela mesma pessoa. Contudo, isso não diminui a importância dos dois poemas para o surgimento da filosofia grega e do pensamento racional ocidental, como um todo.

Não poderíamos, antes de terminar este primeiro ponto, de lembrar a importância das condições políticas, sociais e econômicas que favoreceram a gênese da filosofia grega. Os gregos, diferentemente dos povos orientais, tinham uma peculiar posição de liberdade. O oriental estava preso a uma cega obediência ao poder religioso e ao poder político. Em ambos os campos, o religioso e o político, os gregos gozavam de uma posição privilegiada. Politicamente, com a criação da polis, o grego não sentiu mais nenhuma antítese entre o indivíduo e o Estado e nenhum limite à própria liberdade e, ao contrário, foi levado a compreender-se não acidentalmente, mas essencialmente como cidadão de determinado Estado, de determinada polis. Portanto, para o cidadão grego os fins do Estado foram sentidos como os seus próprios fins, o bem do Estado como o próprio bem, a grandeza do próprio Estado como a própria grandeza, a liberdade do próprio Estado como a própria liberdade.

Os fatos acima foram decisivos para o surgimento da filosofia e, conseqüentemente da ciência da natureza, uma vez que a filosofia surge como physis, ou seja, buscando na Natureza o princípio originário de todas as coisas.

Gostaria, por fim, de lembrar que ao se afirmarem na Grécia as artes plásticas (sécs. VIII-VII a.C.), as figuras elementares dos deuses, que até então flutuavam na imaginação de todos e no canto dos aedos, começaram a encontrar uma interpretação realista. Tão forte, porém, era o símbolo que as vivificava, que a imagem artística, materializada no mármore ou na pintura, não eliminou a concepção transcendente da divindade; pelo contrário, perenizou-a.

Esta fixação artística do mito não significou, entretanto, sua estagnação. Enquanto a civilização grega passava por transformações radicais, também o mito se modificava, em resposta às novas condições econômicas e psico-sociais. Explica-se, assim, como um mesmo mito ¾ ou um mesmo deus ¾ tenha, ao longo do tempo, adquirido uma multiplicidade de significados e atribuições que, hoje, são difíceis de compreender, ou parecem contraditórios. Assim também nasceram ou foram importadas outras lendas, que vieram combinar-se com os mitos primitivos, tornando ainda mais complexo e mais rico o mundo mitológico dos gregos.

Percebe-se, por exemplo, que os deuses que aparecem nos grandes poemas de Homero ( séc. IX a.C.), Ilíada e odisséia, já não são exatamente os mesmos das tradições anteriores. São mais diretamente interessados nas questões humanas e gostam de intervir nas vicissitudes dos mortais. Assim em Hesíodo (séc. VIII a.C.), autor da Teogonia ( e também do tratado As Obras e os Dias): quando apresenta a genealogia dos deuses gregos, nota-se a tendência a colocar uma certa ordem na confusa família das divindades, usando de um critério que muito reflete as condições econômicas e sociais da Grécia agrária daquela época . Já em condições diversas, nos séculos VI e V a.C., quando filósofos e dramaturgos manipulam a matéria mítica, deuses e heróis depõem o halo de superioridade de que os cercara o mito primitivo.

E, em conseqüência, nasce a filosofia da natureza. No Período Arcaico , a filosofia era essencialmente física. Entendemos com esse termo o estudo do que os gregos então denominaram physis e que traduzimos por natureza. Só que os primeiros jônicos, bem como os pitagóricos não tinham uma preocupação apenas com a natureza vegetal, animal e mineral. Acompanhavam o desenrolar das coisas segundo a ordem próprias a elas, segundo sua própria gênese, sua própria physis, sua própria natureza. A natureza dos astros, suas evoluções e a repercussão dessas evoluções na Terra, a natureza do tempo, sua medição, a natureza no sentido que lhe dá a ciência moderna, mas também a natureza da alma, a natureza do discurso, a natureza de nossas preocupações mais profundas, como está se buscando no novo paradigma quântico-dialético da complexidade ou paradigma holístico-ecológico. O novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo “ecológica” for empregado num sentido mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).

Diferentemente do que pensava Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão e, como ele, um dos mestres do Ocidente, a palavra physis não se limita à natureza das coisas materiais. Ainda hoje dizemos, por exemplo, “a natureza de um processo jurídico”, ou “um crime desta natureza”. Tanto no sentido abstrato quanto no sentido material, porém, a palavra natureza tem o mesmo significado: uma referência à gênese própria, específica, característica, imanente à maneira própria de crescer, de se mover, em todos os sentidos do movimento, ao próprio desenrolar-se, de qualquer que seja o objeto.



IV – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ARANHA, Maria Lúcia de Arruda
Filosofando: introdução à filosofia/ Maria Lúcia Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins – 2ª ed. atual. – São Paulo: Moderna, 1993.

ELIADE, Mircea
Mito e realidade. Mircea Eliade – 5ª ed.. – São Paulo: Perspectiva, 2000.

JAEGER, Werner
PAIDÉIA: a formação do homem grego. Werner Wilhelm Jaeger. – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes/ Brasília: ed. da UnB, 1989.

KIRK, J. S., RAVEN, J. E., SCHOFIELD, M.

Os Filósofos Pré-Socráticos. – 4ª ed. – Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1994.

REALE, G.

História da Filosofia Antiga, vol. 1. Giovanni Reale. – São Paulo: Loyola, 1993.

SELVAGGI, F.

Filosofia do Mundo: cosmologia filosófica. Filippo Selvaggi. – São Paulo: Loyola, 1988.





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* Doutor em Ciências: História Social. Professor Titular de Física da Universidade Estadual do Ceará – UECE.

[1] JAEGER, W. Paidéia, citado por Reale, op.cit. p. 20.

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