I - OS PENSADORES JÔNIOS
1. A ESCOLA DE MILETO
A tradição sustenta ter sido Pitágoras o inventor do termo “filosofia”. O termo foi cunhado certamente por um espírito religioso e, por isso é presumível, embora não comprovado historicamente, que tenha sido Pitágoras o seu inventor. Esse espírito religioso pressupunha ser possível só aos deuses uma “Sophia” como posse certa e total, enquanto destacava que ao ser humano só era possível tender à “Sophia” como posse certa e total, um contínuo aproximar-se, um amor jamais totalmente satisfeito dela, de onde justamente o nome filosofia, amor à sapiência.
O que de fato se pode entender por filosofia? A partir de seu nascimento na Grécia, a ciência filosófica apresentou de modo nítido as seguintes características, que dizem respeito, respectivamente, a) ao seu conteúdo, b) ao seu método, c) ao seu escopo.
a) Quanto ao conteúdo, a filosofia quer explicar a totalidade das coisas, ou seja, toda a realidade, sem exclusão de partes ou momentos dela. Já na pergunta de Tales (o primeiro dos filósofos) sobre o princípio de todas as coisas, essa dimensão da filosofia está presente em todo o seu alcance.
b) Quanto ao método, a filosofia quer ser explicação puramente racional da totalidade que é seu objeto. O que vale em filosofia é o argumento da razão, a motivação lógica: é, numa palavra, o logos.
c) Enfim, qual é o seu escopo? Aristóteles, explicou melhor que qualquer um que a filosofia tem um caráter puramente teórico, ou seja, contemplativo: ela visa simplesmente à busca da verdade por si mesma, prescindindo das suas utilizações práticas.[1]
Portanto, a filosofia quer conhecer a totalidade da realidade com método racional e com finalidade puramente teórica. Assim, num primeiro momento, a totalidade do real, a physis, foi vista como cosmos e, portanto, o problema filosófico por excelência foi o problema cosmológico: como surge o cosmos, qual o seu princípio? Quais as fases e os momentos da sua geração? E, assim por diante. É esta a problemática que, essencial ou, pelo menos, prioritariamente, absorve toda a primeira fase da filosofia grega.
Muitos têm observado, com razão, que o antecedente da cosmologia filosófica é constituído pelas teogonias e cosmogonias mítico-poéticas, das quais é muito rica a literatura grega, e cujo protótipo paradigmático é a Teogonia de Hesíodo, a qual, explorando o patrimônio da precedente tradição mitológica, traça uma imponente síntese de todo o material, reelaborando-o e sistematizando-o organicamente. .A Teogonia de Hesíodo narra o nascimento de todos os deuses; e, dado que alguns deuses coincidem com partes do universo e com fenômenos do cosmos, além de teogonia ela se torna também cosmogonia, ou seja, explicação fantástica da gênese do universo e dos fenômenos cósmicos.
Para Reale (Reale, 1993, pp. 41-2) ..é indubitável que a Teogonia de Hesíodo e, em geral, as representações teogônico-cosmológicas são o antecedente da cosmologia filosófica; todavia, é igualmente indiscutível que entre essas tentativas e a cosmologia filosófica (mesmo a mais primitiva, isto é, a de Tales) há uma nítida diferença. Para compreender a diferença entre uma e outra, voltemos às três características que acima indicamos como distintivas da filosofia, ou seja, a) a representação da totalidade do real, b) o método de explicação racional, c) o puro interesse teórico. Ora, não há dúvida de que as teogonias possuem a primeira e a terceira dessas características, mas carecem da segunda, que é qualificante e determinante. Elas procedem com o mito, com a representação fantástica, com a imaginação poética, com intuitivas analogias sugeridas pela experiência sensível; portanto, permanecem aquém do logos, ou seja, aquém da explicação racional.
TALES DE MILETO
Tales nasceu em Mileto, mas não se sabe ao certo sua datas de nascimento bem como a de sua morte Deve ter nascido por volta de 624 a.C. de pais, provavelmente, fenícios. Foi, além de filósofo e cientista, destacado político. Tales foi o iniciador da filosofia da physis, enquanto por primeiro afirmou a existência de um princípio único, causa de todas as coisas que são, e disse que esse princípio é a água.
Segundo Aristóteles[2] Tales disse que o princípio de todas as coisas é a água e, ainda afirmou, que a Terra flutua sobre a água. Ora, aquilo de que todas as coisas se geram é, exatamente, o princípio de tudo. Ele tira, pois, esta convicção desse fato e do fato de que todas as sementes de todas as coisas têm uma natureza úmida, e a água é o princípio da natureza das coisas úmidas. Princípio não é certamente um termo de Tales (que parece ter sido forjado por seu discípulo, Anaximandro), mas é sem dúvida o termo que, melhor do que qualquer outro, indica o pensamento de que a água é origem de tudo. O “princípio” é aquilo do qual as coisas vêm, aquilo pelo que são, aquilo no qual terminam. Tal princípio foi denominado com propriedade pelos primeiros filósofos naturalistas (senão pelo próprio Tales) de physis, palavra que não significa “natureza” no sentido moderno do termo, mas realidade primeira, originária e fundamental; significa o que é primário, fundamental e persistente, em oposição ao que é secundário, derivado e transitório.
Como se vê, diz Reale (Op. cit. p.49): é por uma precisa série de razões, as quais, embora ampliadas pela tradição oral, trazem a inconfundível marca do logos, vale dizer, da motivação propriamente racional: o princípio é a água, porque tudo vem da água, a própria vida se sustenta com a água, acaba na água. Portanto, não mais representações extraídas da imaginação, não mais figurações fantástico-poéticas: passou-se agora decididamente do mito ao logos. E assim nasceu a filosofia.
Tales como dissemos, foi além de astrônomo e matemático, estadista e próspero comerciante. Sua política de estadista consistiu em persuadir as cidades jônicas a se unir contra a Pérsia, cujo crescente poderio constituía para ele um contínuo pavor. Quanto à sua sagacidade nos negócios, Aristóteles dizia que, quando Tales foi criticado por seu pouco senso prático e por despender tempo demasiado com a filosofia, em vez de fazer dinheiro, ele decidiu confundir seus críticos. Prevendo uma fartura de azeitonas durante o verão seguinte, fez depósitos em todas as prensas de azeitonas de Mileto e da vizinha Quios, alugando-as por baixo preço, pois não se apresentou qualquer concorrente. Quando chegou a época da colheita de azeitonas, necessitaram-se de todas as prensas, e Tales as alugou pelo preço que quis. “Assim”, disse Aristóteles, “mostrou ao mundo que os filósofos podem ser ricos, se o quiserem, mas que sua ambição é de outra espécie”.
A fama de Tales baseia-se principalmente em sua astronomia e numa proeza que ele não pode ter feito! Dizem que predisse o eclipse total do Sol ocorrido a 28 de maio de 525 a.C., o que levou a cessação dos seis anos de hostilidades entre a Lídia e os medos. Supõe-se que Tales tivesse conseguido isso usando um ciclo de eclipses ¾ o saros ¾ , familiar para os babilônios, do qual Tales teria tomado conhecimento em suas viagens ao Egito. Mas, de fato, os babilônios nada sabiam a respeito desse ciclo; tudo o que podiam fazer era ver como era um eclipse, observando a Lua muito depois de seu quarto minguante, quando estava próxima da lua nova. Tales sabia disso e, em caso afirmativo, podia ter elaborado esse conhecimento? A maior parte dos historiadores da ciência está convencida de que ele não podia ter feito isso, pelo menos da forma que o historiador grego do século V, Heródoto, descreveu, pois este afirma que Tales era capaz de dizer “nos limites de um ano” quando isso ocorreria. Podemos, certamente, excluir um golpe de sorte e concluir, embora com pesar, que isso foi algo cuja paternidade lhe foi atribuída postumamente.
Segundo Aristóteles, Tales teria afirmado outras proposições. De uma delas diz Aristóteles[3]: “Parece que também Tales considerou a alma como princípio motor, se disse, segundo o que se afirma dele, que o ímã tem uma alma, porque move o ferro”. Reale (Op. citado, p.51) faz o seguinte comentário: “Ora, se o princípio-água não só é a origem de todas as coisas, mas aquilo de que e em que subsistem, é claro que todas as coisas devem participar do ser e da vida desse princípio, e, por isso, todas devem ser vivas e animadas; e o exemplo do ímã devia ser uma prova que Tales aduzia em favor dessa tese geral”.
Embora estas idéias fossem profundamente afetadas, direta ou indiretamente, por precedentes mitológicos, o que é certo é que Tales abandonou as formulações míticas; isto por si só, justifica a afirmação de ter sido ele o primeiro filósofo, por muito ingênuo que fosse ainda o seu modo de pensar. Além disso, ele notou que mesmo certas espécies de pedras podiam ter uma capacidade limitada de movimento e, por conseguinte, pensava ele, de alma transmissora de vida; o mundo como um todo estava, conseqüentemente, de certo modo penetrado (embora, como é provável, não completamente) de uma força vital que, devido ao seu alcance e persistência, podia naturalmente ser chamada divina. Se ele associou esta força vital à água, origem e talvez constituinte essencial do mundo, é fato de que não temos notícia.
ANAXIMANDRO DE MILETO
Anaximandro foi um contemporâneo mais jovem de Tales, tendo nascido por volta de 610 a.C.; morreu algum tempo depois de 547 a. C. Tal como ocorre com Tales, só dispomos de relatos pouco confiáveis a seu respeito, de filósofos gregos posteriores. Assim, Anaximandro é muitas vezes, considerado como tendo determinado os equinócios e a obliqüidade da eclíptica, isto é, o fato de que a órbita aparente do Sol no céu é inclinada de certo ângulo em relação ao equador celeste (essa linha imaginária através do céu, traçada a 90 graus do pólo celeste, ponto em torno do qual o céu parece girar). Mas isso parece pouco provável, tanto porque isso já era conhecido na Babilônia, como porque tal hipótese seria completamente contrária às outras idéias que ele parece certamente ter alimentado.
Foi Anaximandro quem introduziu o termo arché para designar o primum, a realidade primeira e última das coisas, vale dizer, a physis da qual já falamos a propósito de Tales. Mas, contrariamente a Tales, ele sustenta que tal princípio não era a água, mas o ápeiron, ou seja, o infinito ou ilimitado. Na verdade ápeiron é só imperfeitamente traduzido por infinito e ilimitado, porque contém algo mais que os dois termos portugueses não translatam. Á-peiron significa o que é privado de pêras, isto é, de limites e determinações não só externas, mas também internas. No primeiro sentido, ápeiron indica o infinito espacial, infinito em grandeza, isto é, o infinito quantitativo; no segundo, ao invés, o indefinido quanto à qualidade, portanto,o indeterminado qualitativo. O infinito anaximandrino devia ter, pelo menos implicitamente, essas duas valências: de fato, enquanto gera e abraça infinitos universos, deve ser espacialmente infinito, e, enquanto não é determinável como a água, o ar, etc., é qualitativamente indeterminado. (Ver Reale, Op. citado, pp.52-3)
Anaximandro foi o 1º a inventar um gnómon, e colocou um nos Relógios de Sol em Esparta, segundo Favorino na sua História Universal, para assinalar os solstícios e equinócios; e construiu também indicadores de horas. Foi o 1º a traçar um contorno da terra e do mar, e construiu também uma esfera (celeste). Fez uma exposição sumária das suas opiniões, que, suponho eu, Apolodoro, o Ateniense, também encontrou. Diz Apolodoro nas suas Crônicas que Anaximandro tinha sessenta e quatro anos no segundo ano da qüinquagésima oitava Olimpíada (547/6 a.C.), e que morreu pouco depois (tendo atingido a sua plenitude aproximadamente durante a época de Polícrates, tirano de Siracusa). [Diógenes Laércio II, 1-2 (DK 12 A 1), citado por Kirk e all., 1994, pp. 99-100].
Anaximandro escreveu Da Natureza, Circuito da Terra e Spbre as Estrelas Fixas e um Globo Celeste e algumas outras obras. Esses títulos de livros atribuídos a Anaximandro, provavelmente com base em Hesíquio, devem ser considerados com reserva. Reale, Op. citado, p.52, afirma que o título da obra de Anaximandro é Perì physeos = Sobre a natureza. Neste caso, a única obra das citadas acima que se tem fragmento é Da Natureza.
Anaximandro afirmou que os primeiros seres vivos nasceram na umidade, envoltos em cascas espinhosas; e que, com o avanço da idade, se mudaram para a parte mais seca e que, depois de a casca ter estalado, levaram, por um curto espaço de tempo, um gênero de vida diferente. (Écio V, 19, 4, citado por Kirk e all., 1994, p. 142).
É de Anaximandro a primeira tentativa, de que temos conhecimento, para explicar racionalmente a origem do homem, e bem assim a do mundo. Além disso, os princípios gerais do desenvolvimento do nascimento são semelhantes: a umidade é contida num invólucro semelhante à casca das árvores, e o calor causa, de certo modo, uma expansão ou explosão da casca e a libertação de uma forma completa no seu interior. Nem todos os sucessores de Anaximandro se preocuparam com a história do homem (os seus interesses iam antes para a sua condição atual), e nenhum o ultrapassou no ponderado engenho das suas teorias. Apesar de incompletas, as nossas fontes mostram que a explicação da natureza dada por Anaximandro, embora se encontre entre as mais antigas, foi uma das de mais amplo alcance e a mais imaginativa de todas. (Kirk et all, 1994, p. 143).
ANAXÍMENES
Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, foi discípulo de Anaximandro; alguns há que afirmam que foi também discípulo de Parmênides. Disse ele que o princípio material era o ar e o infinito; e que os astros se movem, não por baixo da Terra, mas em redor dela. Empregou a língua iônica, por forma simples e concisa. Segundo afirma Apolodoro, encontrava-se em atividade por ocasião da tomada de Sardes, e morreu na 63ª Olimpíada (528-525 a.C.). (Diógenes Laércio II, 3, in Kirk et all., 1994, p.145).
Segundo Reale, 1993: Anaxímenes, discípulo de Anaximandro,corrige a teoria do mestre neste sentido: o princípio primeiro é, sim, infinito em grandeza e quantidade, mas não é indeterminado: ele é ar, ar infinito. Todas as coisas que são derivam, portanto, do ar e das suas diferenciações. Relata-nos Teofrasto:
[O ar] se diferencia nas várias substâncias segundo o grau de rarefação e condensação: e assim dilatando-se dá origem ao fogo, enquanto condensando-se dá origem ao vento e depois às nuvens; e em grau maior de densidade forma a água, depois a terra e em seguida as pedras; as outras coisas derivam depois destas[4].
Pergunta Reale, op. cit.: Por que Anaxímenes modificou o princípio do mestre?
Vimos que, em certo sentido, Anaximandro dá um salto do seu infinito à geração das coisas: de fato, não se compreende bem de que modo os contrários, separando-se, gerem as várias coisas; por isso Anaxímenes, sem dúvida, pensou que devia buscar outra solução. E a essa outra solução ele deve ter sido guiado pelas seguintes considerações: Simplício relata-nos que Anaxímenes pôs o ar como arché, porque o ar, melhor que qualquer outra coisa, presta-se a variações, e, por conseqüência, melhor que qualquer outra coisa presta-se a ser pensado como princípio de tudo[5].
Anaxímenes foi levado a esse ponto de vista a respeito do ar por ter observado os processos de rarefação e condensação: disse que, quando o ar era distribuído ao nosso redor, ficava invisível, mas, quando condensado, transformava-se em água; quando aquecido, mudava no tempo devido, transformando-se em fogo. Para apoiar essas declarações, citava a observação ¾ ou deveríamos chamar de “experiência”? ¾ de que, quando sopramos o ar de nossas bocas, ele é frio, enquanto, quando abrimos a boca, sem comprimir portanto o ar, ele é quente. Para Anaxímenes, essa substância fundamental era essencialmente composta de minúsculas partículas. Ele usou a palavra “ar” também para a substância fundamental, pois, como o ar verdadeiro, estava em todos os lugares, penetrando em tudo. A respiração era identificada com a alma ¾ ponto de vista que parece ter sido comum a muitas civilizações primitivas ¾ , e era a alma, a respiração, que mantinha unido o corpo físico do ser humano. Além disso, Anaxímenes acreditava que toda a criação, todo o cosmos respirava, e, assim, a respiração era a alma de todas as coisas.
Quanto à própria Terra em forma de disco, Anaxímenes, como Anaximandro, pensava que ela e todo o mundo material tivessem sido formados da condensação de uma massa de ar giratória. A Terra flutuava no ar. O Sol e a Lua eram discos feitos de fogo e giravam em torno da Terra; tornavam-se invisíveis quando estavam muito longe e atrás das partes altas do norte da Terra. E, se olharmos um mapa, veremos que há montanhas ao longe, ao norte de Mileto ¾ as montanhas Rodapé, na Bulgária. Em sua concepção, portanto, Anaxímenes estava seguindo os passos de seu mentor, Anaximandro, e, mais uma vez, tentando construir uma figura do mundo com base em fatos científicos.
2. HERÁCLITO DE ÉFESO
Heráclito nasceu em Éfeso e viveu na transição do século VI para o século V a. C.. Sem dúvida seguindo o cronógrafo Apolodoro, situa o apogeu da vida de Heráclito na 69ª Olimpíada, isto é, em 504-501 a.C.; todas as tentativas dos modernos críticos de determinar mais exatamente a sua data de nascimento e de morte são aleatórias.
Heráclito leva o discurso filosófico dos três milesianos a posições decididamente mais avançadas e em grande parte novas.
Os milesianos interessaram-se prioritariamente pelo problema do princípio das coisas e pela gênese do cosmo a partir do princípio; isto fazendo, notaram o dinamismo universal da realidade, o dinamismo das coisas que nascem e perecem, o dinamismo de todo o cosmo, o dinamismo do próprio princípio que dá origem às várias coisas porque dotado de perene movimento: todavia, eles não explicitaram e não tematizaram este aspecto preciso de toda a realidade nem, por conseqüência, puderam refletir sobre as múltiplas implicações desse mesmo aspecto.
Foi exatamente isso que fez Heráclito.
Em primeiro lugar, chamou a atenção para a perene mobilidade de todas as coisas que são: nada permanece imóvel e nada permanece em estado de fixidez e estabilidade, mas tudo se move, tudo muda, tudo se transforma, sem cessar e sem exceção. É de Heráclito o famoso vaticínio: Para os que entrarem nos mesmos rios, outras e outras são as águas que por eles correm... Dispersam-se e ... reúnem-se... juntas vêm e para longe fluem... aproximam-se e afastam-se. (Fragmentos 12 e 91). Isto significa que : ‘Quem desce o mesmo rio vai sempre ao encontro de águas sempre novas’ e ‘Não se pode descer duas vezes ao mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado’. Em outro fragmento diz: “ Descemos e não descemos ao mesmo rio, nós mesmos somos e não somos”.
Reale, op.cit. p. 64, nos dá a seguinte explicação: O sentido é claro: o rio é aparentemente sempre o mesmo, mas na realidade é feito de águas sempre novas, que se acrescentam e se dispersam; por isso à mesma água do rio não se pode descer duas vezes, justamente porque, quando se desce a segunda vez, já é outra a água que se encontra; e porque nós mesmos mudamos, no momento em que completamos a imersão no rio, tornamo-nos diferentes do momento em que nos movemos para mergulhar, como sempre diferentes são as águas que nos banham: assim Heráclito pode dizer, do seu ponto de vista, que entramos e não entramos no rio. E pode também dizer que somos e não somos, porque, para ser o que somos em dado momento, devemos não ser mais aquilo que éramos no precedente momento, assim como, para continuar a ser, deveremos logo não ser mais aquilo que somos neste momento. E isso vale, segundo Heráclito, para todas as coisas, sem exceção.
Portanto, nada permanece e tudo devém; ou, se se quer, só o devir das coisas é permanente, no sentido de que, para Heráclito, as coisas não têm realidade senão, justamente, no perene devir.
Ele via tudo em estado de perpétua mudança, de tal forma que tudo o que percebemos com os sentidos é algo transitório, não o verdadeiro conhecimento ¾ ponto de vista que deveria, mais tarde, tornar-se corrente, oposto ao ponto de vista que dava demasiada ênfase à observação prática.
Nesse universo de Heráclito, o fogo tinha a primazia como agente de mudanças; o fogo consome as coisas, mudando-as até que elas mesmas se tornam fogo, ao passo que, sem ele, as substâncias podem condensar-se ou se solidificar. Os corpos celestes eram taças contendo fogo, e as fases da Lua eram provocadas pelo modo como a abertura de sua taça se voltava para nós; num céu muito claro e a uma altitude acima do horizonte, o disco da Lua pode, realmente, dar a impressão de que a superfície está dentro de um recipiente, e, portanto, a idéia não era tão absurda como parece.
A despeito de muitas obscuridades e incertezas de interpretação, é evidente que o pensamento de Heráclito possuía uma compreensiva unidade, que (admissivelmente, devido à carência de informação sobre Anaximandro) se afigura inteiramente nova. Praticamente, todos os aspectos do mundo são explicados de forma sistemática, relativamente a uma descoberta central ¾ a de que as mudanças naturais de todas as coisas são regulares e equilibradas, e que a causa deste equilíbrio é o fogo, constituinte comum das coisas, o seu Logos, como era também denominado. O comportamento humano, tanto como as mudanças do mundo exterior, é governado pelo mesmo Logos: a alma é feita de fogo, parte do qual (bem como parte da ordem do universo) se extingue. A compreensão do Logos, da verdadeira constituição das coisas, é necessária, se as nossas almas não vierem a ser excessivamente umedecidas e não se tornarem ineficazes devido à insensatez de cada um. A relação que Heráclito estabeleceu entre a alma e o mundo foi mais digna de crédito do que a de Pitágoras, por ser mais racional; ela apontou um caminho que, de uma maneira geral, só foi seguido pelos Atomistas e, posteriormente, por Aristóteles.
FRANCISCO MARTINS DE SOUSA*
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* Doutor em Ciências: História social. Professor Titular de Física da Universidade Estadual do Ceará – UECE.
[1] Cf. Aristóteles, Metafísica A 2, 982 b 11-28, tradução de Giovanni Reale, 1968.
[2] Aristóteles, MetafísicaA 3, 983 b 6ss, 9ss, 20-27.
[3] Aristóteles, Da Alma, A 2, 405 a 19ss.
[4] Teofrasto, As opiniões dos físicos, fr. 2, reportado por Simplício, In Arist. Phys., 24, 26, citado por Reale, 1993, p. 59.
[5] Simplício, de caelo, 615, 18 ss. Heilberg, citado em Reale, 1993, p.59.
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