quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A FÍSICA É UMA FILOSOFIA?




  A questão acima é uma questão intrigante, mas que tem resposta clara e objetiva. No começo da Filosofia Grega, os primeiros filósofos, chamados de filósofos da Natureza ou físicos, buscaram uma resposta à interrogação filosófica do ser humano acerca do Mundo. E isso caracterizou e caracteriza a Ciência até os nossos dias. Um dos papéis da Ciência é responder às interrogações humanas acerca do Mundo.
   A Física, uma das Ciências da Natureza, tem entre seus papéis buscar responder a essas indagações sobre o Mundo. Os “Físicos” gregos investigavam o Cosmos na sua totalidade, a physis, buscando um princípio originário de todas as coisas o arqué. Essa ambição dos filósofos da Natureza acabou levando a um impasse com o ser parmenidiano e o devir heraclitiano. Aristóteles, observa com perfeita consciência crítica, na sua Metafísica, a busca dos primeiros filósofos da Natureza:
  Os que por primeiro filosofaram, em sua maioria, pensaram que os princípios de todas as coisas fossem exclusivamente materiais. De fato, eles afirmam que aquilo de que todos os seres são constituídos e aquilo de que originariamente derivam e aquilo em que último se dissolvem é elemento e princípio dos seres, na medida em que é uma realidade que permanece idêntica mesmo na mudança de suas afecções. Por esta razão eles crêem que nada se gere e nada se destrua, já que tal realidade sempre se conserva. Assim como não dizemos que Sócrates é gerado em sentido absoluto quando se torna belo ou músico, e não dizemos que perece quando perde esses modos de ser, porque o substrato – ou seja, o próprio Sócrates – continua a existir, assim como também devemos dizer que não se corrompe, em sentido absoluto, nenhuma das outras coisas. De fato, deve haver alguma realidade natural (uma só ou mais de uma) da qual derivam todas as outras coisas, enquanto ela continua a existir sem mudança (Aristóteles, Metafísica, vol. 2, 2002, A 3, 983b 6-18); ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale, p. 15-6).
  Na citação acima Aristóteles reconhece que a pesquisa desenvolvida pelos naturalistas dirigia-se ao todo. Contudo, ele sublinha os limites das soluções propostas por esses pensadores, observando que os princípios aos quais visavam eram materiais e, portanto, limitados, pois, físicos e que tais pensadores não teriam alcançado uma visão dos entes metafísicos. O próprio Reale comenta que o princípio dos filósofos naturalistas era muito mais abrangente do que pensava Aristóteles (nota 9 da citação de Aristóteles acima).
  Este e outros fatos levarão a uma física aristotélica que não é uma Física, mas uma metafísica do sensível. Aqui parece que a física aristotélica se confunde com a metafísica e aí a resposta à questão se a física é uma filosofia se acha positivada. A física aristotélica ou mais precisamente ─ metafísica do sensível ─ é produto de uma revolução começada pelos Sofistas e prosseguida por Sócrates. Tal revolução se completa com a segunda navegação de Platão e do próprio Aristóteles.
   Para compreender o surgimento e o desenvolvimento do fenômeno da sofística e posteriormente, Sócrates, Platão e Aristóteles, é preciso fazer uma análise dos resultados a que chegou a especulação naturalista. Em outra ocasião faremos tal análise, uma vez que nosso objetivo é chegar à Física Clássica de Galileo, Kepler, Descartes, Newton e tantos outros e à Física Moderna de Planck, Einstein, Bohr, de Broglie, Heisenberg, Dirac, Schrödinger, Born e tantos outros.
O ano de 1543 é geralmente considerado o ano do nascimento da ciência moderna. Foram, neste ano, publicados dois livros que produziram alterações significativas no conceito de natureza e do universo: um deles foi o De Revolutionibus orbium coelestium (Sobre as revoluções das esferas celestes) do cônego polonês Nicolau Copérnico, e o segundo foi o De humana corpore fabrica (Sobre a fábrica do corpo humano), do flamengo Andréas Vesálio. Este se ocupou do ser humano, do ponto de vista da observação anatômica, e reintroduziu na fisiologia e na medicina o empirismo que caracterizara as obras dos anatomistas e fisiologistas gregos, o último e mais importante dos quais foi Galeno. O livro de Copérnico introduziu um novo sistema astronômico que contrariava a idéia então generalizada de que a Terra está em repouso no centro do Universo. Copérnico, na verdade, reintroduziu o sistema heliocêntrico de Aristarco, onde o Sol ocupa o centro do Universo.
  A Revolução Copernicana, segundo Kuhn, foi uma revolução de idéias, uma transformação do conceito que o ser humano tinha do universo e de sua própria relação com ele. Já Arthur Koestler tem opinião bem diferente de Kuhn (O Homem e o Universo, IBRASA, 1989, p. 99: 
  O que chamamos de revolução copernicana não foi efetuada pelo cônego Copérnico. O seu livro não se destinava a provocar uma revolução. Sabia ele que muito do que lá estava exposto não era o, que contrariava a evidência, e que a hipótese básica era improvável. Acreditava nela apenas pela metade, à maneira de espírito dividido da Idade Média. Ademais, não era dotado das qualidades essenciais do profeta: certeza de missão, originalidade de visão, coragem de convicção.
  A relação entre Copérnico como pessoa e o fato conhecido por revolução copernicana está resumida na dedicatória do livro ao Papa Paulo III. Diz o importante trecho:
  “Bem me é dado presumir, Santíssimo Padre, que algumas pessoas, ao saberem que neste meu livro Sobre as Revoluções das Esferas Celestes atribuo certos movimentos à terra, bradarão que, defendendo tais opiniões, eu deveria ser imediatamente posto fora de cena... Assim, hesitei longo tempo, não sabendo se devia publicar essas reflexões escritas para provar o movimento da terra, ou se seria melhor seguir o exemplo dos pitagóricos e outros, os quais pendiam para o ensino dos seus mistérios filosóficos apenas a íntimos e amigos, e não por escrito, mas pela palavra falada, como testemunha a carta de Lisis a Hiparco... Considerando esse ponto, o medo do desdém que a minha opinião nova e (aparentemente) absurda me acarretaria quase me persuadiu a abandonar o projeto.”
  As palavras acima de Copérnico são basilares. Se não fosse a presença e persistência de Rético, talvez jamais Copérnico tivesse publicado seu livro. Não por medo da perseguição religiosa como pretendem alguns, uma vez que seu livro só foi colocado no Index setenta e três anos depois de publicado e que o famoso julgamento de Galileo se verificou apenas noventa anos depois da morte de Copérnico. E a colocação do Livro das Revoluções no Index se dá exatamente no primeiro processo de Galileo.
  Mesmo após passar dez anos de um banho vivificador na Itália da Renascença, por que adotou Copérnico essa atitude arrogantemente obscurantista e anti-humanista? Por que guardou por mais de trinta anos suas idéias e não publicou sua teoria? Por que teve Copérnico tamanho medo da Revolução Copernicana?
  A “Revolução Copernicana” foi, em princípio, uma revolução nas técnicas matemáticas empregadas para calcular a posição planetária. Ao reconhecer a necessidade e ao desenvolver tais técnicas novas, Copérnico deu a sua contribuição original para a Revolução que tem o seu nome. Muitos contribuíram para que a Revolução Copernicana fosse implantada e aceita, contudo foram Galileo e Kepler os que mais contribuíram para que tal acontecesse. Com a revolução Copernicana na astronomia havia a necessidade de construção de uma nova física para dar sustentáculo à teoria copernicana e responder às indagações dos aristotélicos. Galileo e Kepler fizeram isso com relação à física terrestre e celeste, respectivamente. Descartes elaborou a filosofia que daria sustentáculo ao mecanicismo e ao reducionismo tão característicos da Física Clássica. Ao separar res extensa e res cogitans, Descartes separou a Física e, portanto, a Ciência da Metafísica ou Filosofia. 
  Newton realizou o grande sonho cartesiano de um Universo mecânico com sua grande síntese.    Substituiu a física aristotélica, e as físicas terrestre galileana e celeste kepleriana, foram reduzidas ou absorvidas, eventualmente, na teoria newtoniana da mecânica e da gravitação, que foi formulada para abarcar tanto aos movimentos terrestres como aos celestes. Ainda que as duas classes de movimento sejam claramente distintas, para descrever os movimentos os de um desses domínios não se requerem outros conceitos que os utilizados no outro domínio. Por conseguinte, a redução das leis dos movimentos terrestres e celestes a um só conjunto de princípios teóricos resulta, simplesmente, na incorporação de duas classes de fenômenos qualitativamente similares em uma classe mais ampla cujos membros são também qualitativamente homogêneos.
No século XIX, Fourier, Carnot, Joule, Clausius e tantos outros começaram a estudar um fenômeno totalmente diferente do fenômeno mecânico. O calor, outro universal, passou a rivalizar com a gravitação e surge a Termodinâmica, e com ela a ciência do complexo. Mas ao final do século XIX, Boltzmann, Maxwell e Gibbs a reduzem à Mecânica Estatística seguindo o sonho de unificação dos físicos. No mesmo século Maxwell unifica óptica, eletricidade e magnetismo no Eletromagnetismo. Aqui estamos bem longe da Filosofia.
  E aí vem o século XX com as duas maiores revoluções da Ciência em todos os tempos:
  A Teoria Quântica e a Teoria da Relatividade. Essas duas revoluções na Física, como diz o professor   F. S. Northrop na Introdução ao livro Física e Filosofia de Werner Heisenbrerg:
  Há uma consciência generalizada de que a física contemporânea deu lugar a uma revisão importante da concepção que o homem tem do universo e de seu relacionamento com ele. Já se disse que essa revisão atinge o que há de mais fundamental no destino e liberdade humanos, afetando mesmo a concepção que tem o homem acerca de sua capacidade de controlar seu próprio destino. Em ponto algum da física isso é tão flagrante quanto no princípio de indeterminação da mecânica quântica, descoberto pelo autor deste livro e que, usualmente, leva seu nome. Portanto, ninguém mais competente do que ele para aferir seu real significado. 
  O princípio da indeterminação quebra o rígido determinismo da Física Clássica, mostrando que a Natureza é probabilista. O princípio da complementaridade de Bohr mostra ondas e corpúsculos como faces da mesma moeda, ou seja, luz e partículas elementares com comportamento dual. Na Teoria da   Relatividade, Einstein distingue entre a simultaneidade de acontecimentos presentes no mesmo lugar e a simultaneidade de acontecimentos distantes, em particular de acontecimentos separados por distâncias astronômicas. Em relação a estes últimos, o problema lógico a resolver é o seguinte: como é que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espaço? Certamente por medições da velocidade da luz, partindo do pressuposto que é fundamental na teoria da relatividade restrita (TRR), de que não há na natureza velocidade maior do que a da luz. No entanto, ao medir a velocidade num sentido único (de A para , Einstein defronta-se com um círculo vicioso: a fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade, é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. Com um golpe de gênio, Einstein rompe com este círculo, demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes não pode ser verificada, pode tão-só ser definida. É, portanto, arbitrária e daí que, como salienta Reichenbach, quando fazemos medições não possa haver contradições nos resultados uma vez que estes nos devolverão a simultaneidade que nós introduzimos por definição no sistema de medições.
  Esta teoria veio revolucionar as nossas concepções de espaço e de tempo. Não havendo simultaneidade universal, o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir. Dois acontecimentos simultâneos num referencial não são simultâneos noutro referencial. As leis da física e da geometria baseiam-se em medições locais: Os instrumentos de medida, sejam relógios ou metros, não têm magnitudes independentes, ajustam-se ao campo métrico do espaço, cuja estrutura se manifesta mais claramente nos raios de luz. O caráter local das medições e, portanto, do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém, vai inspirar o surgimento da segunda condição teórica da crise do paradigma dominante, a mecânica quântica (MQ). Se Einstein relativizou o rigor das leis de Newton no domínio da astrofísica, a MQ o faz no domínio da microfísica. Heisenberg e Bohr demonstram que não é possível observar ou medir um objeto sem intervir nele, sem o alterar, e a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou. Ainda temos o problema da não-localidade e tantos outros trazidos pela MQ. Para fazer uma análise dos problemas de interpretação e filosóficos advindos da MQ teríamos necessidade de um artigo inteiro.
Mas a que conclusão chegamos? A Física Moderna trouxe muitas contribuições para a Filosofia, mas continua a ser Ciência. Einstein nunca aceitou completamente a Mecânica Quântica e nos últimos trinta anos de sua vida, buscou sem descanso a teoria do campo unificado – uma teoria capaz de descrever as forças da Natureza por meio de um esquema único, completo e coerente. A velha busca da redução. Essa busca einsteiniana continua hoje com o Modelo Padrão, grande sonho de unificação entre as duas grandes teorias do século vinte a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade Geral. A grande esperança dos físicos em realizar o sonho de Einstein, reside no Grande Colisor de Hádrons, acelerador de partículas de energia e complexidade sem precedentes, que deverá começar a funcionar em 2010 no CERN, entre a fronteira da França e da Suíça. Contudo, segundo Steven Weiberg “Experimentos avançados devem permitir que completemos o Modelo Padrão da física de partículas, mas uma teoria que unifique todas as forças da Natureza exigirá o surgimento de idéias radicalmente novas”.
  Dentre essas idéias radicalmente novas, a teoria das cordas ou das supercordas é uma candidata potencialmente forte. A essência da teoria das supercordas é: pura música. Isso nos leva a Pitágoras e aos pitagóricos e a harmonia das esferas celestes de Kepler. Alguns físicos dizem que isso não é uma teoria física é filosofia. Falam assim porque a teoria das cordas não pôde ainda ser submetida ao crivo da experimentação que é, desde Galileo e Newton, o critério para decidir se uma teoria é ou não física.   Mas algo é certo: Física e Filosofia sempre andaram juntas, embora tenha parecido no século XIX que estavam separadas. 
  Diz Marilena Chauí em Convite à Filosofia (Ática: 2000):
  As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
  Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
  Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada. 
Com isso concluímos: embora a Física não seja Filosofia, anda entrelaçada com ela, ou seja, Física e Filosofia sempre caminharam juntas.
FRANCISCO MARTINS DE SOUSA 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Metafísica. Ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale, 3 volumes. São Paulo: Loyola, 2002.
BOHR, Niels. Física atômica e conhecimento humano: ensaios 1932 - 1957. Rio de Janeiro: Contraponto, 1995.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
EINSTEIN, Albert. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. Rio de Janeiro: Contraponto: 1999.
GREENE, Brian. O universo elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva. São Paulo: Cia. Das Letras, 2001.
HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. Brasília: Ed. da UnB, 1981.
_____________. A parte e o todo: conversas sobre física, filosofia, religião e política. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
KOESTLER, Arthur. O homem e o universo: como a concepção do Universo se modificou através dos tempos. São Paulo: IBRASA, 1989.
KUHN, Thomas S. A Revolução Copernicana: a Astronomia Planetária no Desenvolvimento do Pensamento Ocidental. Lisboa: Edições 70, 1990. 
WEINBERG, Steven. À procura de um Universo Unificado. Scientific American - Brasil, edição especial: fronteiras da física, 2005, Ano Mundial da Física.

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